NIILÍSMO/ÁCIDO
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo ele todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são, em verdade excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Evening on Karl Johan Street

texto: Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

imagem: Edvard Munch (Noite na rua Karl Johan - 1892)

Male portrait study (a bad conscience) - Franz Stuck

Male portrait study (a bad conscience) - Franz Stuck

E me lembrar sorrindo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados

“Em qualquer caso, a vida não é senão uma procissão de sombras, e sabe Deus por que as abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal angústia, já que não passam de sombras”.
(25 de Janeiro 1882 - 28 de Março 1941)

Em qualquer caso, a vida não é senão uma procissão de sombras, e sabe Deus por que as abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal angústia, já que não passam de sombras”.

(25 de Janeiro 1882 - 28 de Março 1941)

Retalhos

Apanhar dor de sonho

Apanhar dor de sonho

Simplificando os temores, diga o famoso: eu te amo seguido da cor correspondente ao sentimento em questão.

(Acabaram-se os maus-entendidos)

Resposta a um uivo selvagem

e sobre o cordeiro-sacrifício transborda uma outra noite de ilusões,

e sobre essa noite eu vejo na rua uma profusão de bestas infernais marchando no escuro,

bêbados de sua própria monstruosidade

cordeiros para o abate apenas

o cordeiro para o abate e

velhos adulteras caçando adolescentes em seus quartos públicos

poetas enlouquecidos pela beleza profana e grotesca e

atores que colhem suas máscaras do asfalto,

vagabundos iluminados pela cólera

sonâmbulos e sodomitas

e homens copulando com suas cinzas,

homens que copulam por dinheiros como bestas

– AHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Victor Chaos

tlaviani:

Na rua, a arte.

tlaviani:

Na rua, a arte.

Você é um tubo. Um tubo… é… por cima do tubo entra a comida que desce até o estômago, intestino e sai em forma de merda do outro lado, sabia? Está é a primeira humildade que um ser humano tinha de ter: sou um tubo! Um tubo processador de merda

Arnaldo Jabor

texto: Eu sei que vou te amar

imagem: Jean-Michel Basquiat

“You don’t die enough to cry”
(12 Março 1922 – 21 Outubro 1969)

“You don’t die enough to cry”

(12 Março 1922 – 21 Outubro 1969)

A Sagrada Família
Victor Chaos

A Sagrada Família


Victor Chaos

#10 Dionísio (de Ariadne)

X

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Hilda Hilst

#9 Dionísio (de Ariadne)

IX

“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”

Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

Pensando

Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.

Hilda Hilst